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O dia 1 de abril de 1964 em Dois Irmãos - RS
Durante a páscoa do ano de 1964 (29 de Abril) quase todo mundo esperava qualquer interferência grave na vida da nação.
Apesar de que eramos preparados, ao tomarmos conta atravez da radio-emissora gaúcha, na terça-feira, 31 de narço, pelas 22 horas da noite, que as tropas do general Morão estavam marchando de Belo Horizinte rumo a cidade do Rio de Janeiro, ficamos profundamente chocados. Até as 2 horas da madrugada sempre surgiram novas notícias alarmantes.
Na minha agenda profissional do ano de1964 encontra-se uma anotação sublinhada de lapis vermellho: GOLPE DO ESTADO DE MINAS GERAIS.
O III exército, responsável pela seguranca da região suleira do país, havia colocado imediatamente suas „tropas táticas” ao longo da BR-2, artéria principal do transito entre os estados de Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, como medida de proteção do território do Estado de Rio Grande do Sul.
No dia 2 de abril anoteei na agenda:
7 horas fala Meneghetti.
golpe da esquerda
interdição da comunicação pelos meios de informação
começo da „Legalidade II Brizola”
Imediatamente apòs uma proclamação do governador riograndense, Ildo Meneghetti, começou a falar o general Ladário Teles, depois o Brizola declarou „a II. LEGALIDADE” - o segundo movimento em prol do respeito perante a legalidade do governo, ou seja, perante o Presidente da República, João Goulart.
O presidente João Goulart havia providenciado a presençã do general Ladário no estado do Rio Rgande do Sul afim de que sejam devidamente defendidas as instituições legais. Acontece que general Galhardo, até então chefe do III exército, havia sido deposto, já que não a posição política dele não foi suficientemente clara. Depois de ser deposto, ele viajou aao Rio. Brizola mandou ocupar as radio-emissoras e emissoras de TV.
Até as 10 horas da manhã havia interdição da comunicação pelos meios de informação. Pontualmente as 10 horas o general Ladário mandou promulgar uma mesagem dirigida a população da inteira região militar coberta pelo III exército, ou seja Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
A „Brigada Militar”, um contingente da Polícia Militar, subordinado ao governo do Estado de Rio Grande do Sul, ficou integrada ao exército nacional - uma ordem que provocou o imediato protesto do Governador do Estado, Ildo Meneghetti, que havia transferido a sede do governo para Passo Fundo.
O general Ladário declarou sua disposição de lutar em favor do re-estabelecimento da lei e ordem em todo território da república com palavras como:
„O poder satânico dos privilégios não conseguirá de novo de tirar a bandeira das reformas das mãos do povo. Para este povo lutaremos unidos, exército e povo conjunto … Tenho certeza e confiança, que nossa causa é santa e que ninguém nos possa roubar a vitória que é nossa.”
Em seguida foi Leonel Brizola quem falou con a intenção de conjurar o míto dos „grupos dos onze”. Um de seus admiradores em Dois Irmãos havia-se aproximado de mim uns dias atráz, na sexta-feira-santa, e avisado: „Os militares em São Leopoldo estão bem informados sobre sua posição política!” Parece, que o departamento de inteligência militar havia funcionado de maneira exelente. (O chefe do 19 regimento de infanteria, Tte Coronel Oswaldo Nunes, foi conhecido como admirador do governo do Jango.) A garnisão estava em prontidão, aguardando ordens. Neste meio tempo examinava-se as reservas de armas e munição estocados na III região militar e se chegava ao resultado de que havia 20.000 armas de fogo mais 6.000.000 tiros de munição.
Pelas 16 horas de tarde o presidente Goulart aterrisou em Porto Alegre. Em Brasília, neste meio tempo, o parlamento declarou vaga a posição mais alta da República.
No Rio Grande do Sul, o deputado Brizola, apoiado pelo chefe da III região militar, chamou o povo às armas.
O ministro de guerra, neste meio tempo, enviou tropas rumo à região suleira do país.
O governador Meneghetti. com sede provisória em Passo Fundo, anunciou a marcha duma tropa de 5.000 homens, reforçados por um contingente de voluntários, rumo a Porto Alegre, apelando ao general Ladário que este reconhecesse a realidade e evitasse qualquer derramamento de sangue inocente.
Na tarde daquele dia, antes de Goulart embarcar e deixar o país, acompanhamos, um aparelho de rádio transistor nas mãos, o famos comissio na Praça da Prefeitura em Porto Alegre. Brizola instigou os uub-oficiais e sargentos para que atacarem seus oficiais - „e seja a a unha” - caso que estes não aceitassen a liderança dele nesta luta. Neste caso os sargentos deveriam assumir o comando da tropa, afim de garantir a vitória da causa nacional.
Brizola anunciou a formação duma „milícia popular”. Cada vez que ele mencionou o nome do governador Meneghetti, e dos „conservadores”, a multidão começou de gritar: „paredão, paredão!”Durante a noite seguinte resolvi de fazer tudo que era dentro de meu alcance, para impossibilitar qualquer tipo de confrontação dentro das margens de minha paróquia de Dois Irmãos. Queria tentar de evitar situações em que por exemplo jovens inocentes se deixariam atrair pela idéia de formar um grupo desta „milícia popular”. Resolvi fazer tudo possível para evitar que no meio destes colonos, naquela época politicamente pouco aclarecidos,
fosse derramado sangue inocente (e a palavra „inocente” vem de „não ter noção de nada”).
Eu tinha escutado os repetidos apelos de Brizola de formar „milícias”. Devido aos meus contatos com a esquerda radical havia tomado conhecimento da existencia de lugares onde havia núcleos onde se cogitava a formação de clandestinos grupos de extremistas - armados ou ainda não armados. Fiquei preocupado ao pensar nas poddíveis intenções dum amigo da casa, líder dos PTBistas no lugar, mas exercenddo sua profissão na capital do estado; ele era capaz de aparecer de repente em Dois Irmãos com a idéis de formar um grupo destes. Tive conhecimento de que em outras cidades já ficaram ocupados prefeituras e emissoras de radio por tais grupos. Até joje não se sabe com exatidão o número destes „grupos dos onze” existiam neste Brasil, mas é um fato mesmo que o apelo do Brizola foi ouvido em praticamente todos os estados da República e não apenas no Rio Grande do Sul. A repercussão também em círculos do PCB, inclusive em grupos de dissidentes do PCB - e não apenas no PTB - era surpreendente.
Calculei que Jango provavelmente pudesse manter-se em Porto Alegre por nais ou menos duas semanas ao máximo. Ests avaliação me motivou no dia 2 de abril de procurar o prefeito, afim de falar com ele sobre a situação atual do país. O perguntei, quem nesta situação caotica de fato governava: o governador encontrou-se „incomunicado” em Passo Fundo, o Brizola na capital do Estado, aproveitando-se dos meios de comunicação indispensáveis; perguntei, então, quem era quem de fato governava, e quem governava em nosso município de Dois Irmãos: era o prefeito que governava ou, quem sabe, o degado de polícia do lugar (que era admirador fervente do Brizola)? E, pergunteri, quem era que governava o Estadi de Rio Grande do Sul - o Meneghetti, o João Goulart o ou Leonel Brizola com o III exército?
A resposta do homem revelou o real tamanho da confusão e do medo do clássico cidadão humilde e obediente da zona rural ou semi-rural: „Quando o pessoal lá em Porto Alegre manda ordens, somos obrigados de cumprir as ordens que deles recebemos.” O prefeito continuou falando, lamentando: „Nunca antes passamos por uma situação dest, é a primeira vez rm toda minha vida! Não sei o que eu devo fazer. Na outra vez, em 1961, durante o Primeiro Movimento da Legalidade, eles haviam nos mandados instruções da capital do Estado.” Responii: „O senhor não é comunista e eu o sou tampouco, e também os nossos colonos não são. A Igreja Católica ainda não se manifestou, mas ela também não defende a bandeira comunista, por isso não devemos permitir que uma minoria por acaso produzisse câos e desordem neste município; não devemos permitir que venha uma minoria com o propósito de por os moradores em arma, arriscando que se esgotasse sangue inocente num encontro irracional. Por isso temos o dever de por as regras do jogo e proibir que alguem apareçã na rua armado. Quem vai pra rua com uma arma na mão vai pra cadeia!”
O prefeito ficou contente pela orientação que havia recebido e fez apologias por motivo de sua inexperiência e disse que a atual situação significava para ele algo completamente novo e desconhecido. Depois disso ele me perguntou: „Como vou aplicar na pratica este conceito que ora discutimos?” Aconselhei que evitasse de discutir o assunto com o chefe da polícia, senão apenas visitá-lo e declarar o mesmo que declarou o prefeito de Porto Alegre, Sereno Chaise, durante aquele comíssio da Praça da Prefeitura: „Aqui neste município sou eu quem manda e quem garante a ordem! Eu não tolero que alquem andasse armado pelas ruas da cidade. Quem não obedece, vai ser preso pela polícia e marcha instantaneamente pra cadeia!”
O prefeito me prometeu, de convocar ainda na mesma tarde os vereadores e de convidar também os religiosos das tres comunidades sedeadas na cidade. Eu ainda ofereci de ir com o prefeito ainda no mesmo dia ao quartel da infanteria em São Leopoldo afim de conversarmos com os militares.
Graças a deus, pelas 13.30 horas, a radioemissora Guaiba promulgou a notícia referente a desição do presidente João Goularts, de abandonar o país, afim de evitar uma guerra civil com muitos mortos - grandeza gaúcha!
Seja-me permitido de acrescentar um episódio típico que ocorreu nos primeiros dias de abril de 1964 em Dois Irmãos:
Alguns dias depois do golpe parou em frente da delegacia de polícia - vizinhança pertinha da casa paroquial - uma caravana composta de cinco veículos: um jeepe, um van e tres caminhões cheios de soldados vesttidos de uniforme de combate e fortemente armados. O objetivo deles era procurar e prender comunistas. Este tipo de „razzias” com o objetivo de capturar militantes daqueles misteriosos „grupos dos onze”inclusive em lugarejos muito remotos eram frequentes naqueles dias pòs-golpe (Direito à Memória e à Verdade, S. 485)
Na calçada e na rua em frente da delegacia , vis-a-vis do terreno da Comunidade Evangélica havia um aglomerado de militares. Atravesí a rua e perguntei brincando com os soldados, se porventurea sua visita tinha o objetivo de gozar um dos famosos churrascos suculentos do lugar. Os praçãs não não reagiram e ficavam calados.
Neste meio tempo havia chegado em frente da delegacia de polícia também o prefeito. O cumprimentei e pergunteri qual era Ia razão desta invasão castrense. A resposta reconfirmou exatamente o que me havia preocupado: „Eles tem ordem de caçar comunistas, todos os comunistas comprtovados e subversivos que morram no município.” Responií: „Muito bem, todo mundo sabe que não etm este tipo de gente aqui.” E adicionei para o comandante da tropa ouvir: „Durante os dias da crise reinou calma absoluta nesta cidade. Além disso, o sehnor prefeito havia tomado providencias para evitar qualquer perturbação da ordem.”
O prefeito, seu Walter Fleck, mais uma vez me agradeceu pela assistencia prestada e os „caçadores de comunistas” iam- se embora rumo a São Leopoldo sem terem caçados nada e ninguem. No contexto deste episódio lembro-me ainda bem dum momento meio engraçado: o jeepe do comandante só se moveu do lugar depois que a gente com forças unidas o empurrou…